segunda-feira, 12 de abril de 2010

Fantasias sexuais


FANTASIAS SEXUAIS (1982), do filipino naturalizado brasileiro Juán Bajón, estava na minha "wish list" de longas brasileiros desde 2007.

A curiosidade era devida ao segundo curta-metragem dos três que compõem o filme: OS CARONISTAS, no qual um homem dá carona a três jovens até a praia, e acaba perseguindo-os e torturando-os até a morte. Essa sinopse era tudo o que eu tinha, e parece natural que eu quisesse muito ver o filme, pois parecia tratar-se de uma história de horror.

Pois bem, este ano, o SESC Santana (SP) exibiu, nas terças-feiras do mês de março, o projeto As Musas da Boca, no qual FANTASIAS SEXUAIS estava previsto para ser exibido no dia 30. Fui lá, assisti ao filme e tive duas surpresas: a primeira é que OS CARONISTAS é um curta de horror bem legal. A segunda é que o último segmento, chamado A MULHER ABELHA, é outro (bom) curta do gênero.

Ao filme FANTASIAS SEXUAIS, então.

Trata-se de um longa-metragem dividido em três episódios, todos realizados numa chave bastante depressiva (do roteiro à trilha-sonora), sugerindo, cada um deles, uma espécie de "loop" de violência, loucura e desesperança.

O primeiro episódio, que não consegui assistir inteiro, chama-se O CÁFTEN. Segundo a sinpose disponível no Dicionário de Filmes Brasileiros - Longa Metragem, de Antonio Leão, trata-se da história de uma prostituta que vive uma relação sado-masoquista com seu cafetão. Algumas feministas tentam salvá-la, mas ela protege seu algoz e acaba sendo vitimada pela violência dele novamente. A única cena que vi é a final, quando o homem vai embora de carro e a deixa abandonada no meio da rua, jogada no chão, chorando e pedindo clemência - mas sem revelar o que fez com o dinheiro que ele acredita que ela recebeu.

O segundo episódio, OS CARONISTAS, é estrelado pelo ótimo Arthur Roveder, um ator completamente esquecido hoje. Ele faz o papel de um "cowboy" que dá carona a três jovens (um rapaz e duas moças que formam um triângulo amoroso) até uma praia deserta. Chegando lá, ele começa a ameaçá-los - primeiro, a uma das moças, a quem ele tenta violentar. Depois, aos três. O mais interessante do filme é a maneira como o psicopata os mata: perseguindo-os e atropelando-os de carro na praia, numa cena muito parecida com a d'OS CAFAJESTES (1962), do Ruy Guerra, em que Daniel Filho e Jece Valadão perseguem a Norma Bengell. Esse recurso da "citação" consegue dar à cena um curioso tom de ironia em relação às representações da juventude no cinema brasileiro: afinal, vinte anos depois do filme de Ruy Guerra, temos três jovens (desta vez, duas moças e um rapaz) sexualmente liberados curtindo a vida na praia, mas eles são vítimas de um outro tipo de violência, talvez mais próxima dos slasher movies. O final do curta, também na linha dos slashers, sugere um loop quando o assassino dá carona a um outro homem na estrada. Mas, na verdade, os dois têm um diálogo tão ambíguo que não me deixou entender se o caroneiro era uma nova vítima ou um comparsa.

A grande surpresa, porém, ficou para o final: o segmento A MULHER ABELHA, estrelado por Rossana Ghessa e por José Lucas. Nele, uma mulher histérica liga para o CVV dizendo que quer se matar. O atendente, preocupado e manipulado pela conversa, vai até a casa dela. Quando ele chega, encontra-a caracterizada como Madame Butterfly, cantando a ária de Puccini e simulando um suicício. Ao tentar impedi-la, ele acaba - claro - sendo enganado e seduzido pela mulher. Os dois vivem um idílio amoroso de dois dias que parece, desde o início, fadado a dar errado. Afinal, ele é um tímido funcionário de uma funerária que trabalha no CVV como voluntário durante o Natal; ela é uma mulher rica, exuberante e completamente maluca, além de ninfomaníaca. O resultado? Nosso amigo acaba morrendo de tanto transar, desesperado, entupido de gemada com leite e coberto de mel e de penas de travesseiro. Ela, imediatamente, ainda sob o efeito da morte dele, liga para o CVV e inicia uma conversa idêntica à anterior com o jovem que a atende.

Fim

O filme foi bastante prejudicado pela cópia em DVD feita de algum VHS com a fotografia lavada e com o som ainda pior que o original. Com isso, fica difícil avaliar a qualidade técnica que ele provavelmente tinha. De qualquer forma, é (mais) um dos bons filmes paulistas abandonados que merece urgente restauro e revisão crítica.

Ficha técnica completa da Cinemateca Brasileira (reparem o dado involuntariamente cômico: como quase todas as pornochanchadas, o filme está classificado como comédia...)

8 comentários:

  1. Maravilha de descoberta, Laura! Mais um filme que agora está na MINHA wishlist! Se é que existiu um cinema popular realmente forte no Brasil foi o do (s)exploitation, e tenho certeza de que ainda há muitas pérolas desconhecidas com elementos de horror, que tomara que consigamos encontrar!

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  2. pois é, junto com a chanchada (que talvez seja numericamente inferior no cinema, mas virou a forma mais recorrente em todas as mídias), o cinema de exploração está nas principais vertentes do nosso cinema popular.

    mas, num caso como este do FANTASIAS SEXUAIS, também é notório o quanto esse cinema popular foi fundo em questões supostamente "exclusivas" de uma vertente mais intelectualizada. tomara que ainda exista cópia restaurável em película...

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  3. Anônimo14.4.10

    Que outros filmes esse cara fez?
    Abraços,
    Lu

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  4. Oi, Lu! "Linquei" o nome dele para o IMDB. Valeu pela idéia! ;)

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  5. Eduardo Aguilar16.4.10

    O filme tinha uma bela fotografia e lembro q.o crítico Rubem Biafora o elogiou bastante na época do lançamento, possivelmente vc. encontra esse texto com o Sergio Andrade q. tem um blog no qual divulga textos antigos do Biafora.

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  6. oi, Aguilar! que bom que você apareceu por aqui! viu que tem link para aquela nossa entrevista da Carcasse?

    não lembro de ter visto esse texto do Biáfora. vou procurar no blog do Sérgio. valeu a dica!!

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  7. Eduardo Aguilar17.4.10

    oi Laura! Não tinha percebido o link, fico bastante honrado! Em tempo, preciso mais algumas dicas turísticas de POA, vou lhe enviar novo e-mail em pvt.

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  8. Ola eu trabalhei no filme Fantasias Sexuais,como Ass de Camera e no ano de 1983 ganhou o premio APCA de melhor Fotografia.

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