domingo, 16 de maio de 2010

Curuçu - O terror do Amazonas


Na década de 1950, o cinema fantástico B procurava vencer a competição com a TV e, ao mesmo tempo, diminuir seus custos de produção para manter os lucros. Para tanto, inventava algumas estratégias de atração, sobretudo para trazer o público adolescente, que cada vez mais influenciava a sociedade de consumo, enriquecida após a Segunda Guerra.

Uma dessas estratégias foi aumentar a dose de “adrenalina” dos filmes, propondo narrativas mais simples e repletas de surpresas e sustos. A outra foi desenvolver tecnologias inovadoras e interativas. Nesse contexto, um dos maiores sucessos do cinema de B nos anos 50 foi O Monstro da Lagoa Negra (CREATURE OF THE BLACK LAGOON, 1954), de Jack Arnold, feito em tecnologia 3D. Seu impacto foi tanto que o filme teve duas continuações de sucesso (REVENGE OF THE CREATURE e THE CREATURE WALKS AMONG US) e deu origem a dezenas de imitadores.

Entre os muitos “imitadores” d’O MONSTRO DA LAGOA NEGRA, estava CURUÇU – O TERROR DO AMAZONAS (CURUCU – THE BEAST OF THE AMAZON , 1957), uma co-produção independente norte-americana com a então moribunda empresa brasileira Vera Cruz – que cedeu, entre outros, o cenógrafo Pierino Massenzi, o fotógrafo Rudolph Icsey e os atores Luz Del Fuego, Rosa Maria e Wilson Viana. O filme foi escrito e dirigido pelo alemão Curt Siodmak (1902-2000), cineasta e escritor famoso pelos roteiros e publicações de horror e de ficção-científica.

Siodmak e o produtor Richard Kay chegaram às terras brasileiras em 1954 com um projeto ambicioso: filmar por aqui, em locações reais e em cores, um sucessor à altura de O MONSTRO DA LAGOA NEGRA. E o plano fazia todo o sentido: consta que a idéia para o filme de Jack Arnold partira do seu produtor, William Allen, ainda na década de 1940, quando ouvira, num jantar com o cineasta mexicano Gabriel Figueroa, a lenda brasileira sobre um homem-peixe que saía das águas para relacionar-se com mulheres e engravidá-las (lenda que também originou o filme Ele, o Boto, de Walter Lima Jr, realizado em 1987).

Por causa dessa pretensa origem brasileira, a história de O MONSTRO DA LAGOA NEGRA passava-se no Brasil, mais precisamente no Rio Amazonas – mas tudo fôra filmado nos Estados Unidos.

Assim, nada melhor do que aproveitar o sucesso desse exotismo e mostrar a floresta tropical em imagens autênticas – e a cores, ao contrário do que fizera Jack Arnold. Infelizmente, porém, algo saiu errado. Chegando na Amazônia, a equipe foi atacada pelos mosquitos, espantada pelo calor e prejudicada pela pouca infra-estrutura. Isso os obrigou a descer para o Sul e, literalmente, pedir socorro à falida Vera Cruz, que alugou estúdios, técnicos e atores .

CURUÇU acabou sendo filmado quase inteiramente em São Paulo, trazendo os atores John Broomfield e Bervely Garland nos papéis de um cientista e de uma médica levados à Amazônia para investigar misteriosos ataques mortais sofridos por uma colônia de agricultores. Desconfiados de que a causa das mortes poderia ser um lendário monstro gigante, o Curuçu, acabam descobrindo tratar-se de algo bem mais prosaico: um curandeiro (que curiosamente usava bombachas gaúchas) estaria encarnando o monstro para assustar os moradores e manter seu domínio sobre eles.

Muito mais do que uma história de horror, trava-se de uma aventura na selva – e repleta dos clichês mais comuns relativos ao Brasil: índios ameaçadores, piranhas, cobras e crocodilos assassinos, rituais africanos demoníacos, guerras sangrentas entre tribos indígenas, aranhas e insetos gigantes etc. O filme faz até mesmo uma infame piada final, sugerindo que um índio que havia sido curado pela médica era, de fato, um canibal dado a rituais dos mais bizarros.

Somando-se a isso o roteiro bastante confuso, as interpretações canastronas, e os impagáveis momentos trash (como o próprio monstro, além das imagens “de arquivo”, em preto e branco, para representar ataques de piranhas), CURUÇU se tornaria um grande fracasso do cinema B.

Mas, ainda assim, os produtores conseguiram vender o material à Universal Studios, que distribuiu na fita no mundo todo e mandou a mesma equipe para o Brasil, em 1957, para filmar Escravos do amor das Amazonas (LOVE SLAVES OF THE AMAZON, 1958), outra co-produção São Paulo – Hollywood igualmente infame, sobre um grupo de pesquisadores estrangeiros “capturados” por uma tribo de mulheres em busca de reprodutores – e cujo plot parece ser inspirado no romance fantástico brasileiro Amazônia Misteriosa (1926), de Gastão Cruls - que também inspiraria o longa mais recente de Ivan Cardoso, Um lobisomem na Amazônia.

Veja também:
CURUÇU em imagens
Entrevista com o saudoso Pierino Massenzi, diretor de arte
Ficha técnica completa da Cinemateca Brasileira

2 comentários:

  1. O cartaz é fantástico. Mas o filme me parece uma bela bomba! Ainda tenho certeza de que já assisti isso em algum lugar... Talvez no SBT como você disse.
    Uma pena a idéia de criar um filme melhor que O Monstro da Lagoa Negra (o meu preferido dos monstros da Universal) acabar neste fracasso todo e com um monstro daqueles!

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  2. Horácio Higuchi23.2.12

    Tanto CURUÇU quanto ESCRAVOS DO AMOR DAS AMAZONAS foram parcialmente filmados em Belém do Pará em 1956-57. A cena em que os índios enfrentam os protagonistas em CURUÇU em frente a um bambuzal (planta que não ocorre na Amazônia) foi rodada no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, instituição para a qual há um agradecimento nos créditos de abertura (ao som de algumas estrofes do Hino Nacional brasileiro!). Há outras sequências rodadas no antigo terreno da Pirelli, na periferia da capital paraense. O "ataque" dos búfalos (outra espécie não nativa, introduzida na região norte) foi aparentemente flagrado na ilha de Marajó. Em ESCRAVOS, as cenas urbanas foram feitas na Praça da República, também em Belém, nas dependências do Grande Hotel, hoje o Belém Hilton.

    Excelente blogue, o seu! Vamos divulgá-lo.

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