segunda-feira, 10 de maio de 2010

Phobus - Ministro do Diabo

PHOBUS – MINISTRO DO DIABO (1970), do mineiro Luís Renato Brescia, é provavelmente um filmes mais curiosos já feitos no país. Realizado na cidade de Belo Horizonte ao longo da década de 1960, contou com o auxilio da população local para narrar uma história delirante, escrita pelo roteirista Ettore Brescia (filho do diretor) que começa no Egito Antigo e termina nas aulas de Filosofia do Instituto de Educação de Belo Horizonte na metade do século XX.

O aventureiro do cinema Luiz Renato Brescia (1903 – 1988) começara sua carreira cinematográfica ainda na época do cinema mudo, em 1921, quando, com a intenção de montar uma fábrica de filmes virgens, ele foi a Milão, na Itália, estudar cinema e química fotográfica. Em 1927, de volta à sua cidade natal, Juiz de Fora, montou um pequeno estúdio e, em 1940, na cidade de Três Corações, o laboratório cinematográfico Brescia, onde realizou curtas-metragens que compõem a série MOSTRANDO MINAS AO BRASIL.

Em 1945, ele começou a produção de alguns filmes de ficção que não chegaram a ser terminados (o faroeste SAMBRUK e a adaptação de José de Alencar O TRONCO DO IPÊ) e o longa finalizado NOS TEMPOS DE TIBÉRIO CÉSAR (1952), dirigido e escrito por seu filho Ettore Brescia, e remontado como CENTURIÕES RIVAIS, em 1959, que nunca chegou a ser lançado nos cinemas.

Nos anos 1960, transferiu-se para Belo Horizonte por questões profissionais (trabalhava como funcionalismo público em sua outra formação, a de médico-veterinário), e, novamente com seus próprios recursos, fundou as Organizações Cinematográficas Cineminas Ltda, em Belo Horizonte, onde dirigiu PHOBUS, realizado entre 1965 e 1970, novamente com roteiro de Ettore. O filme foi realizado em várias partes da cidade e nos estúdios da Cineminas, com a colaboração da população, de duas rádios locais, de estudantes universitários e de atores semi-profissionais.

Remotamente baseada em histórias como as de H.P. Lovecraft, a novela de Ettore que daria origem ao filme contava a história de Phobus, um ser maligno que, há 5.000 anos, teria feito um pacto com Satã, tornando-se imortal. Mas, para dominar a Terra, ele deveria casar-se com as também imortais deusas egípcias Íris e Amnófis. Sem consegui-lo, teria vivido através dos tempos, encarnando num professor de filosofia, Flávio, para encontrar a reencarnação das duas deusas em suas alunas, Tânia e Wilma, em Belo Horizonte, nos anos 1960.

O filme começa no Egito, num ritual noturno no qual Phobus (Ivaldo Selva), em frente a um altar de pedra decorado com estátuas diabólicas, e cercado por dezenas de homens e mulheres que seguram tochas e vestem capuzes negros, sacrifica uma jovem dançarina, enfiando-lhe uma faca no peito. Então, “pula-se” para os anos 1960, quando a jovem Tânia (Neide Giovanni), recém casada com Alexandre (Ayrton Azevedo) atropela Flávio (Selva, novamente) em frente a uma banca de jornais.

O homem sobrevive milagrosamente, mas os dois voltam a se encontrar pouco depois, quando ela chega para as aulas de Filosofia e descobre que Flávio é seu novo professor. Ele está justamente dizendo que, após abordar Kant, gostaria de discutir os filósofos ocultistas, e conta a história de Phobus e de sua desventura ao não conseguir desposar Iris.

O professor logo começa a chamar Tânia de Iris, e coloca uma serva no encalço de Alexandre, para tentar separar o casal. Ao mesmo tempo, seduz Wilma (Zélia Marinho), noiva de seu aluno, Fernando (Oliveira Duarte), dando-lhe um medalhão amaldiçoado. Ele leva Tânia e Wilma a um cemitério, no qual pretende refazer os ritos malignos e desposá-las, contando com a ajuda de fantasmas que carregam tochas. Mas Alexandre e Fernando, juntamente com o delegado da cidade e com o padre, conseguem eliminar Phobus (fazendo uso de crucifixos e de água benta) e salvar Tânia, enquanto Wilma não sobrevive aos poderes malignos de Phobus.

O filme PHOBUS não foi localizado para esta pesquisa. Sua sinopse e imagens foram obtidas através da auto-biografia de seu realizador, Luiz Renato Brescia, publicada em 1986, pela editora O Lutador, com o título: Como fiz Cinema em Minas Gerais.

Infelizmente, até onde foi possível averiguar, o filme de Brescia não sobreviveu até nossos dias. As informações obtidas sobre PHOBUS têm como fonte o livro autobiográfico do diretor, Como Fiz Cinema em Minas Gerais, lançado em 1986, dois anos antes de sua morte.

Nesse livro, Brescia conta, em detalhes, suas aventuras como cineasta e funcionário público, que havia se mudado com a família para Belo Horizonte no começo dos anos 1960 e, lá, logo ganhara fama como realizador de cine-jornais. Então, seu filho Ettore teria tido a idéia de realizar um filme de horror com base nos sucessos da Hammer, e ofereceu ao realizador um conto seu para ser adaptado.

Brescia relata minuciosamente suas dificuldades para adaptar o texto literário de Ettore (com longos diálogos e locações complicadas, como grutas e ruas movimentadas), a ajuda das rádios e jornais locais para anunciar a procura de atores, os professores de teatro que auxiliaram nos ensaios, a interessada cobertura jornalística da imprensa local, a rotina no estúdio/laboratório freqüentado por dezenas de estudantes etc.

Não ficam esclarecidas, porem, três questões fundamentais: as datas precisas de filmagem e finalização, a origem do dinheiro gasto na produção e os detalhes do trabalhoso processo da direção de arte. Seus comentários sobre a seleção dos atores, porém, somados ao fato de seu filme ter sido realizado inteiramente em locações reais, com a participação da população da cidade, sugerem uma inesperada inspiração “neo-realista” explicada pelo próprio Brescia através de sua ligação com o cinema italiano:

"Fazer cinema em Belo Horizonte?!... Sabia que teria pela frente os maiores obstáculos! Não me permiti ilusões quanto às dificuldades a enfrentar. Por isso deveria préparar-me cuidadosamente. No Rio de Janeiro e em São Paulo, artista era mato! Atores, atrizes, extras e figurantes já acostumados a esta espécie de serviço encontravam-se às pamparras. (...) Belo Horizonte, naquele tempo, era uma bela capital. Pouca gente, mas muita cultura. Excelente teatro municipal, diversos canais de televisão e muitas estações de radiofonia. Cinema de grande metragem, com laboratórios próprios, só havia o meu, mesmo!!! Durante minha estada na Itália, conheci muitos registri, e alguns deles gostavam de usar, nas suas produções, somente amadores, porque moldavam os trabalhos cinematográficos dos novatos a seu modo! Também eu comungava com essa prática." (BRESCIA, 1986, p. 219)

Segundo o cineasta, PHOBUS – MINISTRO DO DIABO foi aprovado pela Censura Federal em 19 de abril de 1971, classificado como “de boa qualidade”, proibido para menores de 14 anos, e exibido em Belo Horizonte somente para autoridades e críticos. O lançamento comercial deu-se no cine Alhambra, na cidade de Divinópolis (MG), em 1974 (Ibid, p. 267). Segundo o Dicionario de Filmes Braisleiros – Longa-Metragem, o público do filme foi de 7.155 pessoas.

Possivelmente, ainda seja possível resgatar o trabalho de Brescia. Conforme ele mesmo afirma ao encerrar sua auto-biografia, “os filmes que realizei encontram-se praticamente inéditos, porém, não perdem época: poderão ser lançados a qualquer momento e em qualquer ocasião”.

Infelizmente, porém, seu filme está longe de ser o único exemplar do cinema de horror brasileiro necessitando de resgate e restauração, o que dá poucas esperanças a quem deseje assistir ao único longa-metragem de horror mineiro em película de que se tem notícia...

Leia também:
Rara entrevista com Luiz Renato Brescia
Sangue mineiro na arte de fazer cinema, por Luiz Felipe Miranda

9 comentários:

  1. Mais um filme da série "Ah, como eu queria ver!"...

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  2. já pensou abrir uma mostra de bordas com o Phobus e encerrar com o Centuriões Rivais? seria a glória!

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  3. Laura, algum sucesso com aquela dica que lhe passei?

    O engraçado é que, pela sinopse, pode tanto ser uma produção da Hammer quanto uma das maluquices de Sganzerla. Ou seja, só vendo o filme mesmo para ter certeza do que se trata!

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  4. Diego Penha11.5.10

    Olá, Laura parabéns pelo blog, não o conhecia e estou gostando muito. Ele está sendo de muita utilidade, pois sou aluno de psicologia da PUC-SP e estou desenvolvendo uma pesquisa pela PUC sobre Psicanálise e filmes de terror. Procurei pelo blog, mas não encontrei um email de contato seu. Acho que meu trabalho seria de grande interesse seu. Deixarei aqui dois emails meus para contato caso lhe interesse.
    penhadiego@yahoo.com
    dibuni_012@hotmail.com
    Grato Diego Penha.

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  5. ainda não tentei nada, Primati. se eu tiver notícias, você será o primeiro a saber!! mas, entre Hammer e Sganzerla, eu aposto mais em Ed Wood... hehe

    Diego, obrigada pelo interesse no trabalho! Acabo de enviar um e-mail para você. Abs!

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  6. Leandro Caraça11.5.10

    O que faz um sujeito chamado Phobus (nome do deus grego do medo) no Egito antigo ? Deve ir na toada do Ivan Cardoso, isso sim ! ;)

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  7. bah, Leandro, você tem razão! isso é a cara do Ivan!

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  8. Anônimo2.11.10

    Sou Historiador de Cinema,como guardo muitas anotações de época,descobri que Neide Giovanni,que faz a Tânia,foi cantora da Rádio Guarani,e foi amiga do pianista Adolfo Maclerevsky,diretor musical da das Rádio Guarani & Mineira e TV Itacolomi;em BH,anos 6O.mlmlmarcoslima@gmail.com

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  9. Depois de ler esse ótimo texto fui procurar o filme no site da Cinemateca Brasileira e achei. Só digitar lá na pesquisa. Pelo menos existe uma cópia em 35mm.

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