sábado, 12 de junho de 2010

Amadas e violentadas


AMADAS E VIOLENTADAS foi um dos maiores sucessos da produtora de David Cardoso (a Dacar) e um dos filmes mais famosos do Jean Garrett.

Um ano antes dele, a mesma dupla emplacara o sucesso A ILHA DO DESEJO (o segundo filme produzido por David Cardoso e o primeiro escrito e dirigido por Jean Garret) que, para surpresa de seus realizadores, foi um grande sucesso de público, atraindo mais de 700 mil pessoas, e transformando a produtora de David Cardoso – a Dacar – em uma das maiores do cinema paulista.

O tema de A ILHA DO DESEJO era a morte de prostitutas agenciadas pelo personagem interpretado por David Cardoso. A mesma idéia do assassinato em série daria o plot do filme seguinte de dupla, AMADAS E VIOLENTADAS (1975).

Em AMADAS E VIOLENTADAS, Cardoso interpreta Leandro, um escritor de livros de ficção sobre crimes insolúveis, que vive recluso, no interior de São Paulo, numa casa enorme, acompanhado apenas da governanta que o criou e de alguns fiéis empregados. Leandro é um homem problemático, que nunca conseguira se curar do trauma de ver a própria mãe ser assassinada pelo pai suicida, e, por isso, enfrenta várias dificuldades para relacionar-se com as mulheres.

Mas, rico e cobiçado, é um ótimo partido, e não faltam beldades em seu encalço. Então, para se defender delas, ele desenvolve o “hábito” secreto de matar, antes do sexo, todas com quem se ele envolve amorosamente, o que lhe permite manter-se virgem e puro sem rejeitar publicamente as mulheres.

Um dia, voltando para casa à noite, no meio da estrada, ele encontra uma jovem órfã perseguida por uma seita satânica. Compadecido, leva a moça para casa e acaba se apaixonando por ela. Os dois se casam, mas, durante a lua de mel (e antes de consumar suas bodas), Leandro tem seus crimes descobertos. Ele então decide se suicidar, deixando a noiva viva e sozinha.

Apesar das evidentes falhas do roteiro (sobretudo a gratuidade da seita satânica, e uma certa confusão entre a história de Leandro e a de seus devaneios literários) o filme já indicava o cuidado de Garret e Cardoso na direção de arte e na encenação, além de revelar, em seu roteiro, evidentes pretensões psicologizantes.

Mas talvez o elemento mais importante de AMADAS E VIOLENTADAS seja sua autoconsciência em relação ao próprio gênero e ao espírito do cinema de exploração, como se pode perceber nesta fala de Leandro/David Cardoso, na noite de lançamento de um de seus livros. A repórter pergunta: “Por que, em seus livros, o assassino é sempre um homem, e a vítima é sempre a mulher?”. Com ar intelectualizado, Leandro responde: “Isso não acontece só nos meus livros. Tem acontecido através da história. A mulher, na sua constituição política, social e física, é quase sempre a candidata principal à vítima”.

AMADAS E VIOLENTADAS foi um enorme sucesso, atraindo um público de mais de um milhão de pessoas, e confirmando a atração exercida pelo tema. Nos anos seguintes, outros realizadores brasileiros aproveitariam a lição da DACAR, produzindo cerca de uma dezena de filmes sobre assassinatos seriais entre os anos 1970 e 1980.

Leia e veja mais sobre o filme e a equipe:
Amadas e violentadas em imagens
Jean Garrett, artesão da Boca, por Ruy Gardnier
Ficha técnica completa da Cinemateca Brasileira do filme AMADAS E VIOLENTADAS (Jean Garrett, 1976).

10 comentários:

  1. Um dos meus preferidos, o filme que fez eu prestar atenção no Garrett, pra mim um gigante do cinema de gênero no Brasil, que poderia até ter se tornado tão grande ou maior do que o Mojica.

    Eu compararia, em termos de discussão acerca da própria razão de ser do cinema de horror, com obras como THE DRILLER KILLER ou THE HOUSE ON DEAD END STREET. Mais ainda: no mundo ideal, seria um cult muito mais conhecido e o Garrett seria um cara tão comentado e respeitado pelos aficionados pelo gênero quanto um Abel Ferrara (pelo menos).

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  2. pois é! e uma curiosidade que esqueci de comentar no texto é que o plot do escritor-assassino me lembra o Instinto Selvagem, do Verhoeven...

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  3. Laura, sempre gosto quando um filme de horror se propõe a ser uma espécie de reflexão sobre o próprio processo de criação do gênero. Por isso gosto demais dessa trama do escritor que relata os próprios crimes que comete, pois a atividade do roteirista é justamente a de "arquitetar" e "executar" esses crimes. Claro que a coisa perderia o sentido se fosse sempre assim, mas as obras que brincam com esse processo metalinguístico sempre me fascinam.

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  4. e o que é legal é que vários filmes brasileiros do período fizeram reflexões semelhantes. mesmo que a memória histórica não tenha registrado isso, é fácil perceber que a discussão estava presente quando se assiste aos filmes.

    lembro por exemplo do SNUFF (que lida com os bastidores) e do ESTRIPADOR DE MULHERES (que discute o jornalismo).

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  5. É sim, Laura, e nisso até o AS TARAS DO MINI-VAMPIRO se salva, com a divertidíssima trama da equipe que vai à cidadezinha para fazer um filme sobre o vampiro.

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  6. hahaha, é mesmo!! este é um filme sobre o qual preciso fazer uma postagem um dia desses...

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  7. Nem sabia que havia seita satânica no páreo. BEm, era uma tendência no horror nos anos 70 e começo dos 80.

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  8. Eu não me incomodo com essa cena do ritual satânico, mas é mesmo forçada, sem nenhuma lógica. Mas pelo jeito é coisa do Garrett: em GOZO ALUCINANTE tem uma cena muito parecida, quando a Debora Muniz foge e é capturada no meio do mato por membros encapuzados que participam de uma cerimônia satânica.

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  9. Anônimo26.5.12

    um filme horivel e muito chato.

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  10. Anônimo5.1.14

    Destaque neste filme a atriz Norah Fontes.

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