quarta-feira, 21 de julho de 2010

Paulo Emílio e Khouri - um estranho encontro


Trechos do texto Rascunhos e Exercícios, do crítico e pesquisador brasileiro Paulo Emílio Salles Gomes, escrito em 1958, sobre o segundo longa de Khouri. Boa parte do que foi dito sobre o Khouri desde então tem origem nesta fonte.


"Walter Hugo Khouri situa-se, artisticamente, nas antípodas de Nelson Pereira dos Santos. O ponto de apoio para este é o um objetivo a ser expresso, e para aquele é o próprio meio de expressão. Para fazer sua fita, Nelson partiu do Rio de Janeiro e de suas favelas. Para colocar alguns personagens em situação dramática nos arredores de São Paulo, Khouri partiu do próprio cinema. A ideologia que informa o autor de RIO ZONA NORTE tem raízes no humanismo difuso para o qual o cinema é uma entre muitas outras válvulas de escapamento. A formação do diretor de ESTRANHO ENCONTRO é essencialmente cinematográfica. Nisso reside ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza. O rascunho populista de Nelson Pereira dos Santos empalidece ao lado do exercício brilhante de Walter Hugo Khouri, mas se, em RIO ZONA NORTE e mesmo em RIO 40 GRAUS, temos um autor que se revela inábil na manipulação do tipo de expressão estética que escolheu, ESTRANHO ENCONTRO nos dá às vezes a impressão curiosa de um estilo à procura do autor de uma história".

"A presença desse estilo desgarrado é tão forte que leva o espectador por caminhos alheios às intenções do realizador. Segundo suas expressas declarações, toda a primeira parte, o encontro de Marcos com a moça na estrada, a instalação de ambos na casa de Vanda, até a chegada da proprietária, deveria constituir um acontecimento lírico. Na realidade, o tom que domina é o de mistério, particularmente nas admiráveis seqüências em flashback que se iniciam na relojoaria e nas quais visualiza-se a narração da heroína. A partir daí, o realizador domina essa espécie de rebelião do estilo contra a sua vontade, mas o espectador se sente um pouco perplexo. Há uma evidente ruptura de tom, o mistério desaparece, tudo é claro...

"Os brilhantes exercícios de estilo de Walter Hugo Khouri o situam imediatamente entre os poucos bons realizadores que possuímos e como uma grande esperança para o cinema brasileiro. A experiência de ESTRANHO ENCONTRO faz-nos, entretanto, perguntar se, como argumentista, roteirista e dialoguista, ele está em terreno que lhe é adequado. A análise feita neste artigo contém um julgamento implícito sobre argumento e roteiro."


GOMES, Paulo Emílio Salles. “Rascunhos e Exercícios”. In: Paulo Emílio, Crítico de Cinema no Suplemento Literário. Vol 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra/Embrafilme, 1981, p. 349 – 355

2 comentários:

  1. Anônimo21.7.10

    ele não se decide muito sobre o que ele acha do Khouri, né?
    abs, Lu

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  2. acho que é bem nessas, Lu!!

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