sábado, 10 de julho de 2010

Texto raro sobre PERVERSÃO, de Mojica


FILME CULTURA, ANO XIII JUL/AGO/SET 1980 N. 35/36, p. 70-71

Crítica do filme PERVERSÃO (1978), de José Mojica Marins, por Paulo Rodrigues.

"(...) É comum qualificar (...) a filmografia de José Mojica Marins de feia, o que aliás é um dos aspectos mais salientado de seus filmes. PERVERSÃO não se furta a tal atributo. É um filme feio, mas muito mais feio do que aquele feio que obtemos através de uma escala de afastamento do belo. É de outra natureza o feio ativo, intenso, um feio produtivo que realiza deslocar sua afetivação significativa para a além de uma oposição feio-belo. Nesse sentido, esse aspecto do filme não deve ser apreendido como uma especificidade, trata-se, antes de uma sutileza estética de José Mojica Marins. (...)

PERVERSÃO apresenta como solidez uma condensação objetiva de estilo, onde a economia de imagens, a força penetrante dos comentários sonoros, a elegância enxuta da narrativa, o desfecho surpreendente muito nos recorda contos fabulosos, como os que nos são oferecidos por um Dalton Trevisan.

PERVERSÃO pode ser compreendido como uma provocação insólita e cruel, firme e objetivamente dirigida ao inconsciente cultural simbólico do indivíduo. Mas é possível percebê-lo também como vaticínio ousado e surpreendente, uma premonição do embate onde se opõem o bem e o mal, os ricos e os pobres, as classes sociais. Se existe uma abordagem do social na filmografia do diretor, ela se enraíza, perfeitamente, na realidade do indivíduo.

José Mojica Marins costuma emoldurar o sentido da narrativa, a verossimilhança da ação de seus personagens, a partir de uma máxima que é prenunciada pelo protagonista no início do filme, como em PERVERSÃO, onde é apresentado em letreiros à guisa de abertura. Nesta obra lemos esta 'jóia' do pensamento jurídico popular - 'o dinheiro pode fabricar um Deus, mas não pode comprar Deus'- da autoria do próprio realizador. Uma máxima que anuncia a grandeza ilimitada do poder de indivíduo, mas que demarca o espaço nos limites deste poder e imensurável que provém do dinheiro. Nos limites restritos desta máxima, podemos definir PERVERSÃO como uma obra sobre as forças descomunais que operam no social.

Tendo por base o destino de um indivíduo, o filme é uma saga trágica que narra uma busca de sentido, a procura da paixão com sua trilha de dores, medo e infortúnios. A história de um homem que não se detém nos limites das regras, normas ou sentimentos morais, que sobrepuja as barreiras do crime, da violação, dos limites da manipulação do corpo de outrem. Ele persegue o sentido que tem sua fonte no corpo da mulher, fonte ilusória e esquiva que não cansa de atormentar, de deslocar suas fronteiras para regiões onde pode se configurar o desfecho onde só o infortúnio e as dores inimagináveis têm lugar.

A lógica da vingança
A narrativa apresenta características que a aproximam de uma fábula popular. A câmera o vai contando uma história em que dois universos opostos são delineados. O mundo dos ricos, representado pelo comendador e seu séquito, e o mundo dos pobres, representado pelo universo das duas mulheres que se envolvem com o malvado. Esta oposição de universos surge como uma referência cruzada no fio da narrativa, conduzida pela trajetória do comendador.

A história de PERVERSÃO é de uma vingança perpetrada de forma avassaladora, uma vingança que na narrativa se realiza duplamente: por um lado a aventura trágica vivida pelo comendador, por outro a confrontação dos universos contrários que são revestidos das características que informam a situação vivida pelo comendador e suas opositoras: sedução, dominação, mutilação.


Mojica, escapando de uma solução simplista que tenderia a colocar à frente a dualidade pobre-rico, imprime unidade na narrativa com destaque à aventura de seu personagem que, sendo um homem de sociedade, não tem suas ações caracterizadas por sua classe, e sim pela perspectiva que, sem deixar de caracterizá-lo na estrutura social, é determinada pelos desígnios da condição de indivíduo: a busca de sentido, a paixão, o poder, o medo, o infortúnio e a fatalidade.

Reduzido em seus elementos mais simples, o enredo de PERVERSÃO pode ser resumido da seguinte forma: a história de um malvado (todo malvado é poderoso) que seduz, deflora e mutila uma menina, filha de uma viúva pobre, que vê malfadar seu desejo de justiça ao recorrer à Lei. A irmã da vítima, tendo protegida a identidade, aproxima-se do vilão e conseguindo conquistá-lo, impõe-lhe o sofrimento de uma recusa que acaba por levá-l ao tormento de uma paixão embriagadora.


Ele luta de todas as formas para obter seus favores, cerca-a de presentes e atenções, e diante de sua recusa oferece o bem mais precioso que poderia ceder - o casamento -, mas ela mantém-se inabalável, até conduzi-lo ao mais acabado desespero. Oferece-lhe então os desejos que ele não ousava confessar, para surpreendê-lo com um gesto impossível, ato tragicamente adverso - com uma navalha, capa o malvado.

O desenrolar da narrativa de PERVERSÃO, por alguns momentos, é acompanhado por uma espécie de coro. No mundo dos pobres o coro só aparece uma vez, age com a inocência de crianças que param seus jogos e brincadeiras para, num carnaval, perseguir a mãe da vítima do comendador quando, desesperançadas, regresso do tribunal. Elas perseguem-nas pelas ruas do subúrbio cantando - 'Mariazinha não é mais aquela, a teta dela...'.

Do lado do comendador, temos uma espécie de sociedade, ou séquito, sempre presente em sua volta. Apesar de ser um personagem dilacerado, perdido em sua busca, na solidão de seu poder, ele vive em função de sua corte. Ela o espreita, teme-o e adora-o, ama-o e o despreza, sorri e para difamá-lo pelas costas. Aprova-lhe os métodos, mas lhe abjura as ações; compreendem sua busca, mas repetem que é tudo por causa do dinheiro. Não fosse o dinheiro não faria as coisas que faz. Partilha o drama do comendador, sorri de suas vitórias e teme por seu destino, como quem teme por um filho que partiu para os campos de batalha.

Quando mutilar jovem arrancando-lhe o bico de um dos seios, ele reúne todos para exibi-lo. Quando lhes apresenta sua nova conquista, eles avaliam, consideram sua beleza, elogiam o bom gosto da escolha e sorriem indo fim não muito diferente que a aguarda. Eles sabem da busca, vivem-na junto com o comendador, na distância que os separa, moldada pelo poder do dinheiro que o coloca à frente na busca da realização.

Na paralisação que resolve o desfecho da narrativa, a fatalidade do destino do comendador marcado pela castração, transfer-se ao nível simbólico para a conftontação entre pobres e ricos. Esta visão da história do confronto desautorizado pela desigualdade das condições, ganha veracidade na lógica da vingança, com sua dose de acaso e de fatalidade que emerge de regiões desde oonde perigo algum ameaçava os poderosos, para de lá, gerar uma trama que tinha por objetivo não mais que castrar o poder no ato de extirpação do mal pela raiz.

Um olho venenoso
Para os que admiram e acompanham a trajetória de José Mojica Marins, filmes como PERVERSÃO (fora do gênero cinema de horror que o consagrou internacionalmente) são a parte mais significativa, se não a mais densa, da sua filmografia. Aqui a visão cinematográfica da realidade brasileira por José Mojica Marins se apresenta de forma mais aguda, limpa e penetrante. Seu pertencimento à cultura brasileira se mostra mais enraizado, o exótico se esvanece para dar lugar a uma visão trágica do homem brasileiro, uma visão na qual o infortúnio do homem moderno se descortina de forma selvagem, brutal e cruel.

A representação da sociedade em PERVERSÃO é excessivamente crua. Mojica criou uma ambientação urbana, na qual, ao mundo burguês é imprimindo de uma força kitsch que São Paulo necessita se apoiar para receber. É um mundo inverossímil, composto de objetos inqualificáveis, de peças irremediavelmente marcadas pelo mau gosto. Com personagens mesquinhos, corruptos, fofoqueiros, ofuscados pelo consumo ou pela possibilidade de consumir.

É nesse mundo que o comendador se desloca, é aí que se desespera na busca de algo inatingível, que luta para para transcender um cotidiano apequenado, usando seu poder para manipular o corpo de outrem. Mas o comendador, magistralmente interpretado pelo cineasta, não se separa de seus consortes a não ser pelo poder econômico de que dispõe. Seu universo é o mesmo, sua busca faz sentido no contexto onde se destaca, mas de onde não se afasta. Sua busca é compartilhada, como suas vitórias festejadas. Se os seus estão sempre a julgá-lo, a medi-lo e avaliá-lo, é porque o caminho no qual envereda é o caminho por onde todos esperam brilhar, é o caminho com que todos sonham, o único que tem sentido, o que faz da aventura trágica do comendador a aventura de todos.

O erótico
Entretanto, o tratamento da sexualidade em PERVERSÃO é discreto, contrariando, mesmo, as regras elementares da pornochanchada. O que não impede de localizarmos no filme o erótico extravagante, que transborda em uma teia de signos que oscila entre o sagrado e o profano, para se aproximar do crime ou de suas fronteiras.

As cenas eróticas não se sustentam na beleza do corpo, tampouco buma poética carnal, menos ainda na representação da relação sexual como uma fonte em si de emoções. Ocorre à sexualidade desempenhar um papel como outros elementos na composição da estrutura narrativa. É um papel especial, pois é através dela que é tecida a substância psicológica dos personagens, mas não funciona como um propósito buscando por ele. Ao contrário, a sexualidade é um lugar onde as coisas acontecem. Por isto, Perversão apresenta apenas três cenas eróticas, mas que não são os pilares onde se assenta a estrutura da narrativa e onde se forma o sentido que o horizontaliza a busca do comendador."
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