quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Coronel e o Lobisomem

Abaixo, crítica de Thiago Stivaletti, da Folha de São Paulo, ao filme O CORONEL E O LOBISOMEM, de Maurício Farias. O texto foi publicado no dia 07/10/2005, na época da estréia do filme em São Paulo.

"No material de O CORONEL E O LOBISOMEM dado à imprensa, a Globo Filmes não deixa de mencionar que, das dez maiores bilheterias brasileiras nos últimos dez anos, nove têm a sua participação. Muitos (LISBELA E O PRISIONEIRO, OS NORMAIS, os filmes da Xuxa) não conseguem se desvencilhar da matriz e criar uma linguagem e um ritmo próprios de cinema. Ou seja, poderiam ter sido feitos para a TV.

É o caso de O CORONEL E O LOBISOMEM, que fecha uma espécie de trilogia idealizada por Guel Arraes a partir da literatura popular -os primeiros participantes foram O AUTO DA COMPADECIDA e LISBELA. Neste terceiro, Arraes aparece só como roteirista, deixando a direção a cargo de Maurício Farias, de A GRANDE FAMÍLIA.

Na história, o coronel Ponciano (Diogo Vilela) começa a ouvir rumores de que seu irmão de criação, Nogueira (Selton Mello), é um lobisomem que assombra a região. Decide expulsá-lo da fazenda. Anos depois, Nogueira volta bem estabelecido e casado com Esmeraldina (Ana Paula Arósio), a prima por quem Ponciano era apaixonado. Nogueira volta para se vingar. Retoma o trabalho com o primo para sabotar seus negócios e levá-lo à falência.

O romance de José Cândido de Carvalho diz muito sobre a desconfiança da elite brasileira em relação aos seus subordinados. Aos olhos do irmão rico, Nogueira, o mais pobre, bastardo e deserdado, é nada menos que um monstro, uma ameaça constante. O tema passa de forma quase despercebida pelo filme, mas o roteiro é inteligente e aproveita ao máximo os neologismos do coronel Ponciano, que se esforça no vocabulário para ser respeitado.

Selton Mello cria um tipo original como o suposto lobisomem. Todo o elenco cumpre seu papel com eficiência. O talento de Arraes na direção faz falta aqui, mas não é o mais grave.

Qual é o problema então? Apesar de todos os efeitos especiais, O CORONEL E O LOBISOMEM aposta muito nos diálogos e pouco na imagem. É um filme falado em excesso, que quase não deixa margem para o espectador digerir a história. Vício oriundo da televisão, onde a novela ou o seriado tem que disputar a atenção do espectador a todo o momento com o telefone, o parente ou qualquer outro ruído importuno.

Como não há tempo para respirar, sente-se até falta dos comerciais ou dos capítulos que ajudam o espectador a se recompor. A impressão é que O CORONEL E O LOBISOMEM sofreu o mesmo processo de adaptação de O AUTO DA COMPADECIDA -originalmente concebido como minissérie, condensado depois para o cinema."

Leia mais sobre o filme:
Ficha técnica completa do filme O CORONEL E O LOBISOMEM (Maurício Farias, 2005)

2 comentários:

  1. Ainda não conferi o filme, mas li o romance homônimo há uns dois anos e gostei muito! Sem contar que é sempre um prazer ver o Diogo Vilela atuando (quem o viu nas peças Cauby, Cauby e A Gaiola das Loucas sabe do que estou falando).

    Cultura na web:
    http://culturaexmachina.blogspot.com

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  2. boa sorte pra você com esse filme! hehe. acho que ele até tem seu valor em termos de produção, mas é chatíssimo, acaba sendo um desperdício...

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