quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A pornochanchada no começo dos anos 80...


Trecho do texto Imaginário da Boca, primeiro estudo sério sobre o cinema da Boca do Lixo feito no Brasil, em 1981, pelo crítico e pesquisador Inimá Simões.

"De maneira geral, o exibidor, indiferente às dificuldades que enfrenta o cinema nacional, não vê com simpatia a emergência de um gênero definido e suficientemente rentável para preocupar exportador estrangeiro, que passa a diminuição dos lucros ao negociante brasileiro. Este, organizado que está em função do cinema americano e condicionado à lei natural da cabeça de lote (a grande produção que dá lucros elevados e traz em sua esteira dezenas de bagulhos), se preocupa com avanço do cinema brasileiro no mercado.

Nesse contexto, periodicamente volta à carga brandindo argumentos às vezes razoáveis, às vezes ridículos. O estribilho é invariável, sempre lembrando que os filmes eróticos brasileiros apelam para a nudez gratuita e por isso acabam levando o gênero ao descrédito do público. As reclamações diminuem à medida em que esses filmes, que exploram com repetição extremada a temática sexual, rendem acima das expectativas mais otimistas e passam, agora sistematicamente, a quebrar recordes de renda nos cinemas centrais de São Paulo.

Um exemplo recente, ocorrido em junho de 1980, é NOITE DAS TARAS - cuja chamada de porta de cinema é “o título já diz tudo” - produzido por David Cardoso e dirigido por ele e mais John Doo e Ody Fraga, com renda diária acima de 300.000 cruzeiros no cine Marabá. Há um momento, na segunda metade da década passada, em que o clamor contra pornochanchada cresce e os exibidores - sempre adotando postura ambígua - , já não estão mais sozinhos.

Dom Vicente Sherer, cardeal de Porto Alegre, adverte contra o de pornografia e a imoralidade. O deputado Ary Kffuri, da Arena paranaense, propõe a cassação de cineastas em atendimento a uma reivindicação da união cívica paranaenses, e até mesmo Edison Arantes do nascimento, Pelé, dá seu palpite, e confirma que a pornochanchada prejudica a imagem do Brasil no exterior. Na mesma linha de lamentações se coloca a maioria dos críticos cinematográficos. Produto espúrio, subproduto, o logro e lixo são algumas das expressões mais recorrentes. A pornochanchada torna-se então uma distorção comercial para o exibidor, uma distorção moral para os setores conservadores do clero e da sociedade brasileira, e distorção estética para os críticos.

Caso a essa altura faltem ainda argumentos, resta a saída comum a todos: culpar o espectador, que na sua eterna e santa ignorância assiste a tais filmes. Aliás, não é de outra coisa que falava Mario Graciosa, então diretor da Embrafilme, ao afirmar pelo Estadão que não há filmes eróticos, pois "o espectadore é que é erótico, por causa de seu estado de espírito ou por ser solteiro e ter dificuldade para encontrar um companheiro".

SIMÕES, Inimá Ferreira. O Imaginário da Boca. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1981, Cadernos 6, p. 21.

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