segunda-feira, 14 de março de 2011

OFF TOPIC - Edward Gorey: deu no New York Times



Vida póstuma de obra macabra

Por MARK DERY

Notícias do mundo espiritual: o espectro de Edward Gorey, morto em 2000 aos 75 anos, assombra nosso inconsciente coletivo.

De certa forma, é assim que deveria ser; Gorey nasceu para ser póstumo. Seus livrinhos ilustrados, venenosamente divertidos, o colocaram como um mestre do gênero macabro-vulgar.

Narradas em verso e ilustradas com um estilo que mistura o surrealismo com as reconstituições criminais vitorianas, as histórias de Gorey estão ambientadas num terreno inconfundivelmente britânico, numa época que é, ao mesmo tempo, vitoriana, eduardiana e da Era do Jazz.

Embora Gorey fosse um americano do século 20, ele evocava um mundo de gramofones e carros acionados por manivelas. O cenário que criou para "Drácula" (1977) espalhou sua fama para muito além dos frequentadores da Broadway.

Mas, até poucos anos atrás, os verdadeiros devotos de Gorey formavam uma sociedade secreta. Não mais.
O escritor Daniel Handler, mais conhecido como Lemony Snicket, contou: "Quando eu comecei a escrever 'Desventuras em Série', eu saía por aí dizendo: 'Sou uma imitação barata de Edward Gorey', e todo mundo dizia: 'Quem é esse?'. Agora, todo mundo diz: 'É verdade, você é uma imitação barata de Edward Gorey".

Tim Burton tem uma óbvia dívida com Gorey. As ilustrações dele estão virando moda até como tatuagens. O mercado de livros e objetos inspirados na obra de Gorey anima editoras independentes como a Pomegranate e a Fantagraphics. Há cada vez mais público na Casa de Edward Gorey, em Yarmouth Port, Massachusetts, e os curadores da primeira grande exposição itinerante de originais feitos por Gorey, chamada "Elegant Enigmas"-atualmente no Boston Athenaeum-, estão aturdidos pelo entusiasmo despertado.

"Eu sabia que Gorey tinha uma ampla audiência, mas não tinha idéia dessa mania", afirmou David Dearinger, um dos curadores do Athenaeum.

As opiniões se dividem sobre os motivos da influência atual de Gorey. "Essa visão de mundo [na obra de Gorey], segundo a qual uma observação mordaz na hora certa pode envergonhar uma pessoa mal educada e fazê-la agir melhor, me parece válida", sugeriu Handler. Muitos veem na obra de Gorey um convite para "voltar ao tempo da gentileza", como dizem os promotores do Baile Eduardiano, uma celebração anual para Gorey.

Já alguns estilistas de moda consideram as alusões históricas anacrônicas na obra de Gorey perfeitas para a nossa época de misturas e remixes. A costureira neovitoriana Kambriel disse que nos seus modelos, como nas histórias de Gorey, "o bom comportamento do passado" recebe uma injeção da "travessura lúdica e da irreverência" do presente.

A banda britânica Tiger Lillies foi indicada ao Grammy em 2003 por seu trabalho "The Gorey End", em colaboração com o Kronos Quartet, que musicava histórias inéditas do artista.

Muitas das imagens de Gorey "parecem jogos teatrais, por isso têm esse apelo dramático", afirmou Dearinger. "Elas são muito bem compostas, fáceis de ler, embora suficientemente detalhadas para que, cada vez que você olha para elas, veja algo que não tinha visto antes."

As imagens também revelam um conhecimento enciclopédico da arquitetura, da decoração e da moda daquela época, e seus padrões repetitivos lhes conferem uma qualidade decorativa.

Os fãs podem se surpreender ao saberem que as ilustrações vertiginosamente hachuradas ou pontilhadas de Gorey eram originalmente iguais ou menores que suas reproduções nos livros. "Você pode imaginá-lo com o nariz praticamente colado no papel, a caneta fazendo traços minúsculos, cada um no lugar onde deveria ficar", disse Dearinger.

Qualquer que seja o tema aparente da obra de Gorey, ela parece sempre insinuar que, na verdade, se trata de outra coisa.

Gorey, por sua vez, teria sem dúvida se queixado (de forma teatral) das tentativas de interpretar intelectualmente sua popularidade póstuma. Como ele gostava de dizer: "Quando as pessoas ficam encontrando significados nas coisas - tenha cuidado".

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